Home / Turismo Internacional / Desenvolvimento do turismo: lições aprendidas ao longo de uma década de experiência no Banco Mundial

Desenvolvimento do turismo: lições aprendidas ao longo de uma década de experiência no Banco Mundial

Este relatório partilha as principais conclusões resultantes do conhecimento e trabalho operacional do Banco Mundial no sector do turismo nos últimos 10 anos.

Pedro Pereira
Banco Mundial
26 março 2026

Na última década, o Banco Mundial mobilizou mais de 10 mil milhões de dólares para apoiar o desenvolvimento do turismo em 80 países.

Introdução

O turismo tem assumido, nas últimas décadas, um papel central nas estratégias de desenvolvimento económico e social, particularmente em países em desenvolvimento. Este relatório do World Bank analisa a evolução do envolvimento desta instituição no setor turístico ao longo de cerca de uma década, evidenciando o seu contributo para o crescimento económico, inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Com base em mais de 100 publicações e 85 operações financiadas entre 2012 e 2022, o estudo procura compreender de que forma o turismo pode funcionar como instrumento de desenvolvimento, enquanto identifica limitações estruturais e desafios persistentes. Este trabalho centra-se especialmente em três dimensões fundamentais: (i) o número e a natureza das operações do World Bank, (ii) as questões de género no setor do turismo e (iii) os impactos económicos associados ao desenvolvimento turístico.

Figura 1 – Número e valor total das operações do World Bank, 2012-2024

Fonte: World Bank, 2026

Evolução e caracterização das operações do World Bank no Turismo

O envolvimento do World Bank no setor do turismo tem evoluído significativamente ao longo do tempo. Inicialmente, nas décadas de 1960 a 1980, os projetos centravam-se essencialmente na construção de grandes infraestruturas turísticas, como resorts e complexos hoteleiros, com forte intervenção estatal.

Posteriormente, entre as décadas de 1990 e 2000, verificou-se uma mudança para abordagens mais integradas, com maior foco na sustentabilidade, no património cultural e na inclusão das comunidades locais. Esta transformação refletiu uma maior consciencialização sobre os impactos sociais e ambientais do turismo.

Na fase mais recente, particularmente após a pandemia de COVID-19, o World Bank passou a privilegiar estratégias orientadas para a resiliência, digitalização e diversificação económica, reforçando o apoio a pequenas e médias empresas (PME) e cadeias de valor locais.

Entre 2012 e 2022, foram analisadas 85 operações relacionadas com o turismo, evidenciando um crescimento significativo do investimento neste setor. Em 2024, o portefólio ativo incluía 71 operações, com um valor total estimado em 7,58 mil milhões de dólares. Este crescimento corresponde a uma taxa média anual de cerca de 16%, significativamente superior à média global das operações do World Bank (7%). Este aumento demonstra a crescente relevância atribuída ao turismo como instrumento de desenvolvimento económico, especialmente em economias emergentes.

As operações do World Bank apresentam uma forte concentração em regiões em desenvolvimento, destacando-se: África (37%); Ásia Oriental e Pacífico (16%); América Latina e Caraíbas (16%); Europa e Ásia Central (13%). Esta distribuição reflete a importância do turismo como motor de crescimento em regiões com elevado potencial natural e cultural, mas frequentemente limitadas por constrangimentos estruturais.

O relatório identifica três categorias principais de operações:

  1. Projetos turísticos diretos – centrados no desenvolvimento de infraestruturas, promoção de destinos e atração de investimento privado.

  2. Projetos transversais – onde o turismo surge como componente complementar em programas mais amplos de desenvolvimento económico.

  3. Projetos ambientais e sociais – que utilizam o turismo como ferramenta para conservação ambiental e desenvolvimento comunitário.

A maioria das operações (82%) enquadra-se nos dois primeiros tipos, evidenciando uma forte orientação para o crescimento económico e desenvolvimento de destinos.

O turismo constitui um dos setores mais dinâmicos da economia global, contribuindo significativamente para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), especialmente em países em desenvolvimento. O aumento das receitas turísticas está diretamente associado ao crescimento económico local, como demonstrado por estudos que indicam que um aumento de 10% nas receitas hoteleiras pode gerar um crescimento de 4% no PIB local. Além disso, o setor desempenha um papel crucial na atração de investimento estrangeiro direto, funcionando como catalisador para o desenvolvimento de infraestruturas e serviços.

O turismo caracteriza-se por uma elevada capacidade de geração de emprego, particularmente em contextos onde existem poucas alternativas económicas. Trata-se de um setor com baixas barreiras à entrada, permitindo a integração de grupos vulneráveis, como jovens, mulheres e populações rurais. Para além do emprego direto, o turismo gera efeitos indiretos significativos em setores como agricultura, transportes e comércio, contribuindo para a dinamização das economias locais.

O turismo destaca-se como um dos setores com maior participação feminina, representando cerca de 53% da força de trabalho, comparativamente com os 39% na economia global. Este facto evidencia o potencial do turismo como instrumento de inclusão económica das mulheres.

Apesar da elevada participação, persistem desigualdades significativas. As mulheres auferem, em média, menos 14,7% do que os homens, e encontram-se frequentemente em empregos precários, sazonais e informais. Estas desigualdades refletem limitações estruturais no acesso a oportunidades de progressão na carreira e posições de liderança.

Figura 2 – Evolução do emprego direto em Turismo, por género, 2014-2024

Fonte: World Bank, 2026

As barreiras ao empoderamento económico continuam a ser muito persistentes. As mulheres enfrentam diversos obstáculos, designadamente: menor acesso a financiamento; limitações no empreendedorismo; discriminação no mercado de trabalho; exposição a situações de assédio. Estes fatores reduzem o potencial transformador do turismo em termos de igualdade de género.

O turismo apresenta um elevado potencial para promover o empoderamento feminino, especialmente através do apoio a PME lideradas por mulheres e da implementação de políticas inclusivas. No entanto, este potencial só pode ser concretizado mediante intervenções específicas que visem reduzir desigualdades estruturais.

Os impactos económicos do turismo estendem-se para além do setor em si, através de efeitos multiplicadores que estimulam diversas atividades económicas. Estes incluem o aumento da procura por produtos locais, o desenvolvimento de cadeias de valor e o crescimento do setor imobiliário. Em alguns casos, as receitas turísticas contribuem diretamente para o financiamento de serviços públicos, como educação, saúde e conservação ambiental, reforçando o seu papel no desenvolvimento sustentável.

Apesar dos benefícios, o impacto económico do turismo não é uniforme. Modelos de turismo massificado tendem a gerar maiores níveis de fuga de capital, reduzindo os benefícios para as economias locais. Em contraste, modelos de turismo comunitário apresentam maior capacidade de retenção de valor e promoção da inclusão social.

Figura 3 – Impactos económicos do Turismo

Fonte: World Bank, 2026

O relatório do World Bank confirma que o turismo desempenha um papel estratégico no desenvolvimento económico e social, particularmente em países em desenvolvimento. O aumento do número de operações e do volume de investimento reflete a crescente importância deste setor nas políticas de desenvolvimento.

Contudo, os benefícios do turismo não são automáticos nem uniformemente distribuídos. Persistem desafios significativos, nomeadamente ao nível da medição de impactos, da sustentabilidade ambiental e das desigualdades de género.

Assim, para maximizar o potencial do turismo como motor de desenvolvimento, torna-se essencial adotar abordagens integradas, promover a inclusão social, com especial enfoque nas questões de género, e reforçar os mecanismos de monitorização e avaliação das políticas implementadas.

Figura 4 – Recomendações para melhorar o Design de projetos turísticos